Olhei me no espelho... levei um longo tempo até adaptar aquela face como sendo minha. Afinal não era mais a mesma menina que entrara naquele quarto de motel barato, me tornara mulher no sentido carnal, e a falta de entusiasmo me consumia meus olhos verdes olharam-me de volta, desta vez ensaiaram um sorriso, que esmaeceu. Reparei no ambiente a minha volta, o cheiro de candida era brochante o azulejo azul lascado em varias partes, lembrou me do garoto que me esperava além daquela porta, passei a fechadura com cuidado, não o queria comigo, não aquele momento.
Liguei o chuveiro a água pelo menos era bem quente, caia sobre minha pele em gotas fortes como se cada uma quisesse invadir meus poros, pensei na minha mãe, será que ao ver-me saberia que não era mais uma moça casta? Qual seria sua reação, me veio a mente, ela com sua bíblia surrada nas mãos pequenas, falando me por horas a fio que garotas que se deitavam com homens antes do casamento herdavam o reinos do inferno, arderiam para sempre no caldeirão do capeta, ri baixinho, ultimamente gostava mais da idéia de ir pra lá do que subi para os céus onde haveria um exercito de minhas mães todas com suas bíblias e livros de cantos, meu riso aumentou de volume.
Bebi um pouco de água quente, o calor me acalmou.Desliguei o chuveiro ele ficou gotejando enquanto eu passava a tolha áspera por sobre meu corpo.Caminhei até meu ponto de partida num impulso parti o espelho com a aliança de prata na minha mão direita, sinal de amor daquele que me esperava no quarto ao lado, o sangue escorreu por minhas mãos, pela primeira vez senti-me mulher, era senhora de mim e do meu destino. Meu namorado bateu desesperado à porta o acalmei com minha voz mais suave. Ele grudou-se a porta só sossegando no momento que abri a porta.
Sai, ele beijou me com força olhou me as mãos beijou a que estava ferida olhei nos olhos dele, vi o quanto ele se importava comigo. Naquele momento senti-me mulher eu tinha poder por sobre um homem...
O natal se foi e com ele a esperança de que o novo ano que se abria traria paz, olhei o telefone cruzei os dedos mesmo assim ele não tocou, a ressaca me consumia, meu noivo o homem com o qual gostaria de ompartilhar a vida me esquecera no natal. Seria possível? Tirei ele do gancho levei ao ouvido, a linha estava lá, maldito sinal porque não sumira? Assim a culpa seria da empresa de telefone e não do meu noivo, no meu intimo crescia uma espécie de presságio, olhei a aliança dourada na minha mão direita, lembrei me da felicidade ao ouvir da boca dele "Quer se casar comigo?" Me apaixonei por ele só de lembrar a minha felicidade naquele restaurante. Meu Deus será que eu era uma tola, mas havia amor nos olhos castanhos dele, eu juro.
Levantei me caminhei como sonambula até o banheiro, abri a torneira da pia, esfreguei a água gelada na face, seria possível que ele me esquecera em menos de vinte e quatro horas? Minha sanidade ia pelo ralo junto com a água, passei pela minha irmã no corredor rumo ao quarto, vi e senti piedade no olhar que ela me lançou, eu não precisava daquilo eu precisava do Fabio segurando minha mão. Meu coração doía, gemia alto dentro do peito. Por onde andava ele.
Ao entrar no quarto minha mãe estava lá como uma estatua, só de ve-la senti vontade de chorar, eu podia muito bem imaginar o que ela falaria pra mim.Dito e feito. Minha mãe sentou-se segurou em minha mão e sem uma palavra ela me disse que estaria ali comigo e quando tudo acabasse sobreviveriamos a tudo.
- Por que? Perguntei chorando
- Acontece. Ela me respondeu enquanto chorava também.
O telefone tocou... era ele,precisava conversar comigo em meia hora estaria na minha casa, cada segundo daqueles minutos eram me tão penosos como o calvário, ouvi a buzina... minha mãe mandando ele entrar... ele andando como um estranho... como se a casa lhe fosse desconhecida, como se ali nunca houvesse entrado... aproximou-se de mim. Beijou me a testa e sorriu, por dentro eu sangrava mas não pronunciei nenhuma palavra... deixei que falasse e como falou por horas, escutei a voz calma me explicando o que eu vi ao olhar na mão direita dele, e vê-la sem aliança.
Não chorei, estava muito triste para chorar, ele então abraçou-me disse me no ouvido que seriamos amigos para sempre. Pensei apenas será que seriamos amigos para sempre do mesmo modo que ele me prometera que seríamos amantes para sempre...

